exquisito
Proviene del latín ex-squisitus 'buscado minuciosamente', participio
pasado de ex-quirere 'buscar cuidadosamente', formado por el prefijo
latino ex- y el verbo quaerere 'buscar'. A lo largo de los siglos, el
significado fue cambiando y hoy se aplica en nuestra lengua a aquello
'que es de una calidad, un refinamiento y un gusto extraordinarios'.
Pero no se trata de un capricho de los hispanohablantes: ya en la Roma
clásica tuvo, además de 'buscado diligentemente', la denotación de
'distinguido, delicado, delicioso'. Plinio el Viejo llegó a utilizar el
sintagma exquisitae epulae para significar 'banquete de deliciosos
manjares', por evolución del rasgo semántico de esmero y minuciosidad. Cervantes es uno de los primeros que atestigua esta palabra en español.
En el portugués de hoy, en cambio esquisito es 'anormal, diferente,
excéntrico, raro, inexplicable' y, en Brasil, también 'feo,
desagradable'.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
a Princesa acordou
Em alguns momentos do ano Pelotas acorda da mesmice e vira uma cidade cultural. A Flia (Feira do Livro Independente e Autónoma) é uma dessas raras oportunidades. Não deixe de conferir.
Poesia
Homem Na Estrada - Racionais Mc's
(Composição: Mano Brown)
Um homem na estrada recomeça sua vida
Sua finalidade: a sua liberdade
Que foi perdida, subtraída
E quer provar a si mesmo que realmente mudou
Que se recuperou e quer viver em paz
Não olhar para trás, dizer ao crime: nunca mais!
Pois sua infância não foi um mar de rosas, não
Na FEBEM, lembranças dolorosas, então
Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim
Muitos morreram sim, sonhando alto assim
Me digam quem é feliz, quem não se desespera
Vendo nascer seu filho no berço da miséria.
Um lugar onde só tinham como atração
o bar e o candomblé pra se tomar a benção
Esse é o palco da história que por mim será contada
Um homem na estrada
Equilibrado num barranco, um cômodo mal acabado e sujo
Porém, seu único lar, seu bem e seu refúgio
Um cheiro horrível de esgoto no quintal
Por cima ou por baixo, se chover será fatal
Um pedaço do inferno, aqui é onde eu estou
Até o IBGE passou aqui e nunca mais voltou
Numerou os barracos, fez uma pá de perguntas
Logo depois esqueceram, filha da puta!
Acharam uma mina morta e estuprada
deviam estar com muita raiva
"Mano, quanta paulada!"
Estava irreconhecível, o rosto desfigurado
Deu meia noite e o corpo ainda estava lá
coberto com lençol, ressecado pelo sol, jogado
O IML estava só dez horas atrasado
Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim
Quero que meu filho nem se lembre daqui
Tenha uma vida segura.
Não quero que ele cresça com um "oitão" na cintura
e uma "PT" na cabeça.
E o resto da madrugada sem dormir, ele pensa
o que fazer para sair dessa situação
Desempregado então
Com má reputação
Viveu na detenção
Ninguém confia não
E a vida desse homem para sempre foi danificada
Um homem na estrada
Um homem na estrada
Amanhece mais um dia e tudo é exatamente igual
Calor insuportável, 28 graus
Faltou água, já é rotina, monotonia
Não tem prazo pra voltar, hã! Já fazem cinco dias
São dez horas, a rua está agitada
uma ambulância foi chamada com extrema urgência
Loucura, violência, exagerado
Estourou a própria mãe, estava embriagado
Mas bem antes da ressaca ele foi julgado
Arrastado pela rua o pobre do elemento
o inevitável linchamento, imaginem só!
Ele ficou bem feio, não tiveram dó
Os ricos fazem campanha contra as drogas
E falam sobre o poder destrutivo dela
Por outro lado promovem e ganham muito dinheiro
Com o álcool que é vendido na favela
Empapuçado ele sai, vai dar um rolê
Não acredita no que vê, não daquela maneira
crianças, gatos, cachorros disputam palmo a palmo
seu café da manhã na lateral da feira
Molecada sem futuro, eu já consigo ver
Só vão na escola pra comer, apenas nada mais
Como é que vão aprender sem incentivo de alguém
Sem orgulho e sem respeito
Sem saúde e sem paz
Um mano meu tava ganhando um dinheiro
Tinha comprado um carro
Até Rolex tinha!
Foi fuzilado a queima roupa no colégio
Abastecendo a playboyzada de farinha
Ficou famoso, virou notícia
Rendeu dinheiro aos jornais, ham!, cartaz à policia
Vinte anos de idade, alcançou os primeiros lugares
Superstar do notícias populares!
Uma semana depois chegou o crack
Gente rica por trás, diretoria
Aqui, periferia, miséria de sobra
Um salário por dia garante a mão-de-obra
A clientela tem grana e compra bem
Tudo em casa, costa quente de sócio
A playboyzada muito louca até os ossos
Vender droga por aqui, grande negócio.
Sim, ganhar dinheiro ficar rico enfim
Quero um futuro melhor, não quero morrer assim,
num necrotério qualquer, um indigente sem nome e sem nada
O homem na estrada
Assaltos na redondeza levantaram suspeitas
logo acusaram favela para variar
E o boato que corre é que esse homem está
Com o seu nome lá na lista dos suspeitos, pregada na parede do bar.
A noite chega e o clima estranho no ar
e ele sem desconfiar de nada, vai dormir tranquilamente
mas na calada caguetaram seus antecedentes
como se fosse uma doença incurável
No seu braço a tatuagem, DVC, uma passagem, 157 na lei
No seu lado não tem mais ninguém
A Justiça Criminal é implacável
Tiram sua liberdade, família e moral
Mesmo longe do sistema carcerário
Te chamarão para sempre de ex presidiário
Não confio na polícia, raça do caralho.
Se eles me acham baleado na calçada
Chutam minha cara e cospem em mim é
Eu sangraria até a morte
Já era, um abraço!.
Por isso a minha segurança eu mesmo faço
É madrugada, parece estar tudo normal.
Mas esse homem desperta, pressentindo o mal
muito cachorro latindo
Ele acorda ouvindo barulho de carro e passos no quintal
A vizinhança está calada e insegura
Premeditando o final que já conhecem bem
Na madrugada da favela não existem leis
Talvez a lei do silêncio, a lei do cão talvez
Vão invadir o seu barraco, é a polícia!
Vieram pra arregaçar, cheios de ódio e malícia
Filhos da puta, comedores de carniça!
Já deram minha sentença e eu nem tava na "treta"
Não são poucos e já vieram muito loucos
Matar na crocodilagem, não vão perder viagem
Quinze caras lá fora, diversos calibres, e eu apenas
Com uma "treze tiros" automática
Sou eu mesmo e eu, meu Deus e o meu orixá
No primeiro barulho, eu vou atirar.
Se eles me pegam, meu filho fica sem ninguém
E o que eles querem: mais um "pretinho" na FEBEM.
Sim, ganhar dinheiro ficar rico enfim
A gente sonha a vida inteira e só acorda no fim
Minha verdade foi outra, não dá mais tempo pra nada
Bang! Bang! Bang!
"Homem mulato aparentando
Entre vinte e cinco e trinta anos
É encontrado morto na estrada do
M'Boi Mirim sem número
Tudo indica ter sido acerto de contas entre quadrilhas rivais.
Segundo a polícia, a vitima tinha vasta ficha criminal."
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Poesia
Não discuto
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
Paulo Leminski
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
Paulo Leminski
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Cuento 7 - No oyes ladrar los perros - Juan Rulfo
NO OYES LADRAR LOS PERROS
-Tú que vas allá arriba, Ignacio, dime si no oyes alguna señal de algo o si ves alguna luz en alguna parte.
-No se ve nada.
-Ya debemos estar cerca.
-Sí, pero no se oye nada.
-Mira bien.
-No se ve nada.
-Pobre de ti, Ignacio.
La
sombra larga y negra de los hombres siguió moviéndose de arriba abajo,
trepándose a las piedras, disminuyendo y creciendo según avanzaba por la
orilla del arroyo. Era una sola sombra, tambaleante.
La luna venía saliendo de la tierra, como una llamarada redonda.
-Ya
debemos estar llegando a ese pueblo, Ignacio. Tú que llevas las orejas
de fuera, fíjate a ver si no oyes ladrar los perros. Acuérdate que nos
dijeron que Tonaya estaba detrasito del monte. Y desde qué horas que
hemos dejado el monte. Acuérdate, Ignacio.
-Sí, pero no veo rastro de nada.
-Me estoy cansando.
-Bájame.
El
viejo se fue reculando hasta encontrarse con el paredón y se recargó
allí, sin soltar la carga de sus hombros. Aunque se le doblaban las
piernas, no quería sentarse, porque después no hubiera podido levantar
el cuerpo de su hijo, al que allá atrás, horas antes, le habían ayudado a
echárselo a la espalda. Y así lo había traído desde entonces.
-¿Cómo te sientes?
-Mal.
Hablaba
poco. Cada vez menos. En ratos parecía dormir. En ratos parecía tener
frío. Temblaba. Sabía cuándo le agarraba a su hijo el temblor por las
sacudidas que le daba, y porque los pies se le encajaban en los ijares
como espuelas. Luego las manos del hijo, que traía trabadas en su
pescuezo, le zarandeaban la cabeza como si fuera una sonaja.
Él apretaba los dientes para no morderse la lengua y cuando acababa aquello le preguntaba:
-¿Te duele mucho?
-Algo -contestaba él.
Primero
le había dicho: “Apéame aquí… Déjame aquí… Vete tú solo. Yo te
alcanzaré mañana o en cuanto me reponga un poco.” Se lo había dicho como
cincuenta veces. Ahora ni siquiera eso decía. Allí estaba la luna.
Enfrente de ellos. Una luna grande y colorada que les llenaba de luz los
ojos y que estiraba y oscurecía más su sombra sobre la tierra.
-No veo ya por dónde voy -decía él.
Pero nadie le contestaba.
El
otro iba allá arriba, todo iluminado por la luna, con su cara
descolorida, sin sangre, reflejando una luz opaca. Y él acá abajo.
-¿Me oíste, Ignacio? Te digo que no veo bien.
Y el otro se quedaba callado.
Siguió caminando, a tropezones. Encogía el cuerpo y luego se enderezaba para volver a tropezar de nuevo.
-Éste
no es ningún camino. Nos dijeron que detrás del cerro estaba Tonaya. Ya
hemos pasado el cerro. Y Tonaya no se ve, ni se oye ningún ruido que
nos diga que está cerca. ¿Por qué no quieres decirme qué ves, tú que vas
allá arriba, Ignacio?
-Bájame, padre.
-¿Te sientes mal?
-Sí.
-Te
llevaré a Tonaya a como dé lugar. Allí encontraré quien te cuide. Dicen
que allí hay un doctor. Yo te llevaré con él. Te he traído cargando
desde hace horas y no te dejaré tirado aquí para que acaben contigo
quienes sean.
Se tambaleó un poco. Dio dos o tres pasos de lado y volvió a enderezarse.
-Te llevaré a Tonaya.
-Bájame.
Su voz se hizo quedita, apenas murmuraba:
-Quiero acostarme un rato.
-Duérmete allí arriba. Al cabo te llevo bien agarrado.
La
luna iba subiendo, casi azul, sobre un cielo claro. La cara del viejo,
mojada en sudor, se llenó de luz. Escondió los ojos para no mirar de
frente, ya que no podía agachar la cabeza agarrotada entre las manos de
su hijo.
-Todo
esto que hago, no lo hago por usted. Lo hago por su difunta madre.
Porque usted fue su hijo. Por eso lo hago. Ella me reconvendría si yo lo
hubiera dejado tirado allí, donde lo encontré, y no lo hubiera recogido
para llevarlo a que lo curen, como estoy haciéndolo. Es ella la que me
da ánimos, no usted. Comenzando porque a usted no le debo más que puras
dificultades, puras mortificaciones, puras vergüenzas.
Sudaba al hablar. Pero el viento de la noche le secaba el sudor. Y sobre el sudor seco, volvía a sudar.
-Me
derrengaré, pero llegaré con usted a Tonaya, para que le alivien esas
heridas que le han hecho. Y estoy seguro de que, en cuanto se sienta
usted bien, volverá a sus malos pasos. Eso ya no me importa. Con tal que
se vaya lejos, donde yo no vuelva a saber de usted. Con tal de eso…
Porque para mí usted ya no es mi hijo. He maldecido la sangre que usted
tiene de mí. La parte que a mí me tocaba la he maldecido. He dicho:
“¡Que se le pudra en los riñones la sangre que yo le di!” Lo dije desde
que supe que usted andaba trajinando por los caminos, viviendo del robo y
matando gente… Y gente buena. Y si no, allí está mi compadre
Tranquilino. El que lo bautizó a usted. El que le dio su nombre. A él
también le tocó la mala suerte de encontrarse con usted. Desde entonces
dije: “Ése no puede ser mi hijo.”
-Mira a ver si ya ves algo. O si oyes algo. Tú que puedes hacerlo desde allá arriba, porque yo me siento sordo.
-No veo nada.
-Peor para ti, Ignacio.
-Tengo sed.
-¡Aguántate!
Ya debemos estar cerca. Lo que pasa es que ya es muy noche y han de
haber apagado la luz en el pueblo. Pero al menos debías de oír si ladran
los perros. Haz por oír.
-Dame agua.
-Aquí
no hay agua. No hay más que piedras. Aguántate. Y aunque la hubiera, no
te bajaría a tomar agua. Nadie me ayudaría a subirte otra vez y yo solo
no puedo.
-Tengo mucha sed y mucho sueño.
-Me
acuerdo cuando naciste. Así eras entonces. Despertabas con hambre y
comías para volver a dormirte. Y tu madre te daba agua, porque ya te
habías acabado la leche de ella. No tenías llenadero. Y eras muy
rabioso. Nunca pensé que con el tiempo se te fuera a subir aquella rabia
a la cabeza… Pero así fue. Tu madre, que descanse en paz, quería que te
criaras fuerte. Creía que cuando tú crecieras irías a ser su sostén. No
te tuvo más que a ti. El otro hijo que iba a tener la mató. Y tú la
hubieras matado otra vez si ella estuviera viva a estas alturas.
Sintió
que el hombre aquel que llevaba sobre sus hombros dejó de apretar las
rodillas y comenzó a soltar los pies, balanceándolos de un lado para
otro. Y le pareció que la cabeza, allá arriba, se sacudía como si
sollozara.
Sobre su cabello sintió que caían gruesas gotas, como de lágrimas.
-¿Lloras,
Ignacio? Lo hace llorar a usted el recuerdo de su madre, ¿verdad? Pero
nunca hizo usted nada por ella. Nos pagó siempre mal. Parece que, en
lugar de cariño, le hubiéramos retacado el cuerpo de maldad. ¿Y ya ve?
Ahora lo han herido. ¿Qué pasó con sus amigos? Los mataron a todos.
Pero
ellos no tenían a nadie. Ellos bien hubieran podido decir: “No tenemos a
quién darle nuestra lástima.” ¿Pero usted, Ignacio?
Allí
estaba ya el pueblo. Vio brillar los tejados bajo la luz de la luna.
Tuvo la impresión de que lo aplastaba el peso de su hijo al sentir que
las corvas se le doblaban en el último esfuerzo. Al llegar al primer
tejaván se recostó sobre el pretil de la acera y soltó el cuerpo, flojo,
como si lo hubieran descoyuntado.
Destrabó
difícilmente los dedos con que su hijo había venido sosteniéndose de su
cuello y, al quedar libre, oyó cómo por todas partes ladraban los
perros.
-¿Y tú no los oías, Ignacio? -dijo-. No me ayudaste ni siquiera con esta esperanza.
El llano en llamas, 1953.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Conto 6 - PASSEIO NOTURNO - Rubem Fonseca
PASSEIO NOTURNO
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa-de-cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando empostação de voz, a música quadrafônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala? Perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa-de-cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando empostação de voz, a música quadrafônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala? Perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar
isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a
mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de
trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham
a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já
posso mandar servir o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a
minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela
estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando
estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor.
Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.
Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia,
era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro
todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser
usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher
respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo
que eu tirasse o meu carro. Tirei o carro dos dois, botei na rua, tirei o
meu e botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem,
fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas
ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo
de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a
chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em
silêncio, escondido no capô aerodinâmico, Saí, como sempre sem saber
para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais
gente do que moscas. Na Avenida Brasil, ali não podia ser, muito
movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o
lugar ideal. Homem ou mulher?, realmente não fazia grande diferênça, mas
não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre
acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia
ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mail fácil.
Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário,
coisas de padaria ou quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa,
havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante
problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e
acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som
das borrachas dos pneus batendo no meio-fio. Pequei a mulher acima dos
joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um
golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei
uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma
das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto.
Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em onze segundos. Ainda
deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar,
colorido de vermelho, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de
subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve
pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo
inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.
A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está
mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o
vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um
dia terrível na companhia.
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